Bancos adiam parcelas de mais de 1 milhão de contratos de crédito imobiliário

Bancos adiam parcelas de mais de 1 milhão de contratos de crédito imobiliário

SÓ NA CAIXA ECONÔMICA FEDERAL, QUE TEM CERCA DE 69% DE PARTICIPAÇÃO NO MERCADO, FORAM MAIS DE 800 MIL PEDIDOS DE ADIAMENTO. CONSIDERANDO O MERCADO COM UM TODO, AS ROLAGENS JÁ DEVEM ULTRAPASSAR 1 MILHÃO DE CONTRATOS

O mercado de crédito imobiliário já sente os impactos da crise gerada pela pandemia de coronavírus no Brasil. Para conter uma ruptura dos contratos e uma nova onda de retomadas de imóveis, os bancos concederam carência de 60 dias nas parcelas dos empréstimos. Só na Caixa Econômica Federal, que tem cerca de 69% de participação no mercado, foram mais de 800 mil pedidos de adiamento. Considerando o mercado com um todo, as rolagens já devem ultrapassar 1 milhão de contratos.

Em paralelo a isso, a contratação de novos financiamentos caiu 50% desde o estouro da crise, e uma parte dos processos que estavam em análise nas instituições financeiras tiveram pedidos de suspensão. “E nos contratos que estão dentro dos bancos, o cliente tem pedido para suspender, não para cancelar. As pessoas estão querendo se situar sobre a questão do emprego”, diz a presidente da Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip), Cristiane Magalhães Portella, em entrevista ao Broadcast.

Diante desse cenário, o setor, que previa crescimento de 18% para este ano, está revendo suas projeções para baixo. No ano passado, os financiamentos totalizaram R$ 139 bilhões e mostraram um mercado em pleno reaquecimento.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

 

Broadcast: De que maneira a crise do coronavírus impactou o mercado de crédito imobiliário?

Cristiane Magalhães Portella: Todos os bancos aderiram aos 60 dias de carência. É importante explicar porque não foi muito bem visto o anúncio como um todo. Tivemos uma oportunidade de ter comunicado melhor e as pessoas entenderem melhor. São 60 dias de carência e essas parcelas são incorporadas no saldo devedor. O termo aditamento quer dizer exatamente isso, mas não é coloquial. Não estamos isentando os juros, mas estamos dando essa carência e incorporando essas prestações no saldo devedor a perder de vista. Na verdade, o que está sendo dado é fôlego, sem multa e sem juros adicionais, só o que está combinado.

 

Broadcast: Os clientes têm conseguido acessar a carência?

Portella: Todas as instituições estão cumprindo. O que pode estar acontecendo é que temos uma sobrecarga que é natural nas centrais de atendimento e, por outro lado, as centrais tiveram de ser esvaziadas por questões de segurança. Tivemos uma demora maior no atendimento, mas uma vez que esse atendimento é feito e o cliente se coloca elegível a esses 60 dias, a carência está sendo implantada normalmente. O que foi anunciado está sendo cumprido. Vamos seguindo para ver como está sendo a crise e se será necessária outra medida adicional, pensando nas pessoas físicas.

 

Broadcast: Nos últimos dias surgiram projetos de lei no Congresso para a suspensão de pagamentos diversos por parte dos consumidores. Isso pode chegar aos contratos de crédito imobiliário?

Portella: É natural que existam projetos que busquem tirar pressão do consumidor nessa hora. Mas a sociedade como um todo precisa buscar um ponto de equilíbrio para não gerar insegurança jurídica e comprometer investimentos futuros. As instituições financeiras já tomaram a iniciativa de adiar as cobranças do financiamento, e, neste caso, adiar também processos de retomada de imóveis. Nenhum banco quer virar uma imobiliária. É importante que o projeto de lei que, eventualmente, vá para frente pondere que as pessoas precisam sobreviver à crise, mas também que é preciso manter o apetite das instituições financeiras no médio a longo prazo para garantir o apoio ao setor produtivo.

 

Broadcast: A crise do coronavírus pode elevar o volume de imóveis retomados ou a medida da carência é suficiente?

Portella: Talvez o que já foi anunciado não seja o suficiente, mas dado que o objetivo das instituições não é retomar o imóvel, naturalmente outras medidas, se a situação perdurar, devem ser anunciadas no sentido de ajudar nessa transição. Não temos data de quando a crise vai passar, mas a gente sabe que é uma crise com data. Pode ser daqui a dois, três, quatro meses. Como é uma crise com data, há um incentivo para os players de mercado buscarem as melhores negociações para manterem o contrato vigente e não ter uma ruptura.

 

Broadcast: Quais medidas a senhora vê como possíveis?

Portella: Acho que seria algo na linha de extensão da carência. Pensando que é uma crise com data, trabalhar em cima de carência é o que faz mais sentido. Não faz sentido reduzir juros de um contrato de 30 anos. O que precisamos é ver como dar fôlego para as pessoas que vão retornar ao mercado de trabalho ou que estão tendo a sua fonte de renda impactada.

 

Broadcast: Os bancos vão socorrer também as empresas de construção? Elas pediram liberação de recursos para as obras mesmo nos casos de dificuldade de vistoria sobre da evolução do canteiro, além de postergação de pagamentos.

Portella: No caso das incorporadoras, a recomendação é para olhar caso a caso a possibilidade de flexibilizar a medição das obras. A situação varia de acordo com cada empresa e cada projeto. Em alguns locais onde há dificuldade de circulação, um porcentual de recursos poderá ser liberado sem medição do canteiro. É possível fazer liberação por até 90 dias sem a medição local, mas conforme critério de cada banco. Não temos recomendação única.

 

Broadcast: Como a crise impactou no desempenho do crédito imobiliário neste ano?

Portella: Estávamos falando de um crescimento da ordem de 32% no crédito imobiliário com recursos da poupança neste ano. Certamente, com os números de hoje, eu falaria em 20%. O que temos olhado é o que aconteceu no mercado chinês, que realmente parou por uns três meses e está retomando agora. Com certeza, os 32% não serão e um crescimento de 20% seria super otimista em relação ao ano passado, mas isso depende de quanto tempo ficará nos níveis que a gente está vendo hoje.

 

Broadcast: E a demanda?

Portella: Não temos um número oficial, consolidado, mas as entradas se reduziram em 50%. Mesmo os contratos que estão dentro dos bancos, o cliente tem pedido para suspender o processo, não para cancelar. As pessoas estão querendo se situar sobre a questão de emprego. Estamos falando de uma redução importante nos novos pedidos e as instituições estão focadas em soltar o que já tinha entrado. Dos que entraram, 15% tiveram pedido de suspensão.

 

Broadcast: A senhora citou o crédito com recursos da poupança. E no todo? A projeção será revista?

Portella: Sem dúvida. Até fevereiro, independentemente de qualquer coisa, o volume com recurso de FGTS já veio menos que o esperado. Com funding de SPBE (recursos da poupança), olha que beleza que estava, tínhamos feito R$ 10,7 bilhões acumulados, com crescimento de 33% em relação ao mesmo período do ano passado. Exatamente como havíamos falado. Já as concessões com FGTS até fevereiro tinham ficado em R$ 3,4 bilhões, ou seja, caíram 39%. Então, estava vindo nesse descompasso. A gente precisa ter os dados de março para ver como vêm os recursos de FGTS.

 

Broadcast: Em março, a queda é certa com o lockdown?

Portella: A gente estima que em março deve ter tido uma redução do mercado da ordem de uns 20% por dia útil do que vinha em fevereiro, mas tinham muitas operações já encaminhadas. Abril vai ser o primeiro mês full (completo) da crise para a gente ver o tamanho do impacto.

 

Broadcast: Pessoas físicas e jurídicas têm reclamado do aumento dos juros em meio à crise. E no crédito imobiliário?

Portella: Não. No crédito imobiliário, o que vemos são as taxas no menor patamar da história. Os juros estão em torno de 7,5% ao ano. O que pode acontecer é que não venha uma redução. Mas não vejo espaço para subir os juros. Queremos estimular o setor. Mesmo porque os contratos são de 30 anos e a gente acredita que a crise será curta. Não tem o porque mexer nos juros agora.

 

Broadcast: Qual o impacto na tentativa do mercado de diversificar as fontes de recursos além da poupança?

Portella: Vai fazer o setor ficar aguardando, em compasso de espera.

 

Broadcast: O home equity pode ser uma alternativa na crise?

Portella: É uma excelente alternativa, principalmente, para alongar a dívida e reduzir o custo. O tomador pode fazer um pacote com todas as dívidas que têm. Esse mercado vem crescendo, mas ainda tem muito para crescer no Brasil.

 

Fonte: ABECIP / ESTADO DE SÃO PAULO

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